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Bologna
1995. Concreto aerado, tijolos, 250X900X470 cm

 


Panorama with Two Guardians
1994. Tijolos, tecido decorativo, 250X600X190 cm


Torso and Landscape: The Faces of Lost Expectations
1992. Tijolos, feltro, madeira compensada, filme em poli�ster, 190X1200X400 cm

 



Marjetica Potrc

Por Goran Tomcic


Casa Morta

Nossa vida � breve; estamos sempre nos referindo aos s�culos que precederam ou que se seguir�o ao nosso, como se fossem totalmente estranhos a n�s, mas eu me aproximei deles com minha brincadeira com as pedras. Estas paredes que refor�o ainda est�o quentes devido ao contato com corpos que desapareceram; m�os que ainda n�o nasceram acariciar�o as hastes destas colunas. Quanto mais meditei sobre a minha morte, e especialmente sobre a morte de outra pessoa, mais tentei acrescentar �s nossas vidas essas extens�es virtualmente indestrut�veis. Em Roma preferi usar nosso tijolo resistente; ele volta, embora, lentamente, para o solo, de onde veio, e seu assentamento e destrui��o impercept�veis formam uma volumosa massa mesmo quando a constru��o visivelmente j� n�o serve mais aos objetivos para o qual foi constru�da - uma fortaleza, um circo, uma tumba. Na Gr�cia e na �sia escolhi o m�rmore nativo, aquela bela subst�ncia que, depois de cortada, continua t�o fiel �s medidas e propor��es feitas pelo homem que todo o projeto de um templo sobrevive em cada fragmento de uma coluna quebrada.1

As quest�es levantadas pela an�lise das refer�ncias da artista n�o podem ser encerradas nos limites ou nas problem�ticas de g�nero e nem mesmo nos da hist�ria da arquitetura e da cenografia ocidentais. Como ela pr�pria admitiu, suas paredes s�o as representa��es de uma representa��o do discurso ocidental. Em outras palavras, os seus primeiros trabalhos - esculturas de tijolos com lados duplos - foram feitos sem que ela se preocupasse com o discurso da perspectiva ocidental. Durante muito tempo ela esteve interessada na perspectiva como paradigma, "como o paradigma de algo na ordem representativa com implica��es que recaem sobre "qual � o caso", sobre o que est� em pauta, em quest�o, o que por si s� traz a indaga��o: "Was der Fall ist".2 Este paradigma ainda est� presente na sua obra, mas agora como um meio de contar as hist�rias.

Em 1994 Potrc come�ou uma s�rie de alegorias perceptivas de fachadas especificamente urbanas montadas no interior de uma galeria. Diferentes de suas paredes com lados duplos que n�o permitiam ao observador uma "contempla��o verdadeira", a nova s�rie de paredes intitulada Territories e Panoramas t�m car�ter descritivo, podendo ser vista como representa��es. Com a s�rie Territories, a artista tamb�m passou a inserir figuras humanas no espa�o da representa��o. A figura humana representa o papel do contador de hist�rias, pois sua presen�a est� ligada ao fato de contar uma hist�ria ou � personifica��o de algum ditado espec�fico relativo � parede que ela incluiu em sua s�rie Territories. Dessa forma, a artista assume diretamente sua pr�pria teatralidade. Ao distanciar seu trabalho (como ela mesma afirma: "N�o fa�o objetos. Construo paredes".) da heran�a do modernismo e especialmente do minimalismo norte-americano e seu discurso da categoria friediana da "teatralidade", Potrc procura refer�ncias na hist�ria da representa��o escultural pr�-renascentista. Do mesmo modo, suas abordagens urbanas de panoramas da arquitetura se prefiguram de acordo com a cenografia cl�ssica, mas, em fun��o de sua necessidade de construir cen�rios panor�micos, essas mesmas abordagens tamb�m se constituem em um campo imaginativo no qual o conceito se articula na forma de uma aus�ncia ou falta de algo.

No ver�o de 1995 Potrc produziu uma instala��o para uma localidade espec�fica, Breathing Facade, para o projeto Urbanaria em Liubliana. O projeto consistia em dois alto-falantes instalados na fachada do no 11 da rua Cankarjeva, uma agitada rua do centro da cidade. Uma vez que os alto-falantes foram instalados no topo do segundo andar da fachada, os transeuntes n�o os notavam � primeira vista. Mas podiam ouvi-los. A cada hora a fachada dava "um forte suspiro". Em seguida quem passava podia ouvir sons provenientes de dentro e de fora do edif�cio. A maioria ficava apreensiva com os s�bitos ru�dos do novo projeto de lados duplos: uma personifica��o da fachada real da cidade.

As recentes instala��es de Potrc, Budapest e New Tork Territories, presas a uma parede da galeria Lombard-Freid, em Nova York, s�o uma alegoria da simbiose entre o corpo humano e a arquitetura. A postura da pessoa que toca essa parede colocando a m�o no buraco deixado intencionalmente pela artista � uma personifica��o do poema de Walt Whitman "The city dead-house". A artista optou por aplicar esse poema para enfatizar a cl�ssica interliga��o entre o corpo humano e a arquitetura. A pessoa ligada � parede de Nova York, com as suas m�os no buraco, l�:
(...) Depositaram seu corpo n�o reivindicado, ele est� sobre o pavimento �mido feito de tijolos,
A mulher divina, seu corpo. Vejo o corpo, s� eu o estou vendo,
Aquela casa outrora cheia de paix�o e de beleza, n�o noto mais nada,
Nem a paralisa��o t�o fria, nem a �gua que jorra da fonte, nem odores m�rbidos me impressionam, mas somente a casa - aquela maravilhosa casa - aquela delicada e bela casa - aquela ru�na!"

Ironicamente, na �poca da sua instala��o em Nova York, um pr�dio de apartamentos de quatro andares no n�mero 349 da East 54th Street em Manhattan desmoronou, deixando entrever, em cada andar, as cortinas dos banheiros e, o que � mais importante, deixando seus habitantes sem moradia. Um dos moradores, que estava em casa no instante do desmoronamento, comentou: "Ouvi reboco caindo como se fosse peda�os de tinta caindo de dentro da parede. Comecei a vestir meus sapatos e em seguida ouvi um barulho, n�o muito forte, mas um barulho, e a� os encanamentos come�aram a estourar. Ent�o um dos homens da constru��o ligou e disse: Saiam todos. O pr�dio est� caindo!"3

A estrutura teatral das paredes de Potrc � "similar a tela": um sistema constru�do para que o olho fa�a com que a aus�ncia se torne presente, para decifrar o sistema que sublinha o texto em forma de escultura. Uma vez que a artista constr�i suas paredes Territories de acordo com o m�todo narrativo em oposi��o ao discurso formal de suas primeiras esculturas, ela aborda o tema do conhecimento liter�rio. Ao mesmo tempo aborda motivos e temas da vida cotidiana. Devemos sempre ter em mente que stat rosa pristina nomina, nomina nuda tenemus, a personifica��o do Tempo abordada por suas paredes est� inserida sob o nome de Aion ("Est�vel Eternidade") em oposi��o ao nome de Saturno, o destruidor:

"A cena de Sarajevo destru�da, a cena que podemos facilmente montar atrav�s das imagens televisivas, remete-nos de forma inevit�vel a um homem deitado em certa posi��o que tenta levantar sua cabe�a: Man-Sarajevo". 4

Potrc nunca construiu Sarajevo Territory; ela n�o foi a Sarajevo para instalar seu Territory naquela cidade. Este Man pode ser qualquer outro homem. Para mencionar apenas as paredes j� formadas em uma "parede imagin�ria", este Man tamb�m � o Man-Skofja Loka, Celje, Ptry, Villach, Ljubljana, Stuttgart, Tonsberg, Budapeste, Trieste, Bochum, Washington D.C., Nova York, Moscou, Annandale-on-Hudson.

A artista � atra�da pelo uso de formas que j� existem, sejam elas velhas ou novas. H� muitos exemplos na hist�ria da arquitetura que demonstram a personifica��o do corpo humano na parede. A pr�pria parede colecionou um arquivo de significados ontol�gicos ao longo da hist�ria da civiliza��o. Revelar essa heran�a � a preocupa��o b�sica da s�rie Territories.


1. Marguerite Yourcenar, Memoirs of Hadrian, traduzido do franc�s por Grace Frick em colabora��o com a autora (Nova York; Farrar, Straus & Giroux, 1954), p. 127.
2. Hubert Damisch, The Origin of Perspective, traduzido por John Goodman (Cambridge, London: the MIT Press, 1994), p. 90.
3. Bruce Weber, Residents can retrieve items After Collapse in The New York Times, 20 de mar�o, 1996, p. 83.
4. Bogdan Bogdanovic, Mesto in Smrt (Urbis morientis imago), Iz srbscine prevedla Mojca Sostarko, (Celovec-Salzburg: Zalozba Weiser, 1995), p. 50 (traduzida pelo autor para este ensaio).



Cronologia


Vive e trabalha em Liubliana, Eslov�nia


Exposi��es individuais

1996
Theatrum Mundi, Lombard-Freid Fine Arts, Nova York, Estados Unidos; Emerson Gallery, MacLean Project for the Arts, Vancouver, Estados Unidos; Center for Curatorial Studies, Bard College, Annandale-on-Hudson, Nova York, Estados Unidos.
1995
Galerie Freihausgasse, Villach, �ustria; Architektur-Skulptur, Ifa-galerie, Stuttgart, Alemanha; Haugar Vestfold Museum, Tonsberg, Noruega; Urbanaria, Soros Center for Contemporary Arts, Liubliana, Eslov�nia.
1994
Art Gallery, Celje, Eslov�nia; Grohar Gallery, Skofja Loka, Eslov�nia; regional Museum, Ptuj, Eslov�nia.
1993
Biennale di Venezia, Pavilh�o eslov�nio, Atteneo San Gasso Gallery, It�lia.
1992
Arnold & Porter, Washington DC, Estados Unidos; School 33 Art Center, Baltimore, Estados Unidos.
1989
Student Center Gallery, Zagreb, Cro�cia.
1988
Mala Gallery, Museum of Modern Art, Liubliana, Eslov�nia.
1987
SKUG Gallery, Liubliana, Eslov�nia.


Exposi��es coletivas

1996
The Collection of the Parasite Museum, Museum Bochum, Alemanha.
1995
House in time, Museum of Modern Art, Liubliana, Eslov�nia; The Collection of the Parasite Museum, M�csarnok, Budapeste, Hungria; Sculpture Space: 20 years, exposi��o itinerante em dois locais: Munson Williams Proctor Institute, �tica, Estados Unidos.
1994
Material & Substance, Allegheny College Art Galleries, Meadville, Estados Unidos; U3, Museum of Modern Art, Liubliana, Eslov�nia.
1993
La Coesistenza dell'Arte, Biennale di Venezia, Procuratie Vecchie, It�lia.
1992
Inteferenzen VII, Museum d. 20 Jahrhunderts, Viena, �ustria; View from Baltimore to Washington, University of Maryland Art Place, Blatimore, Estados Unidos.
1990
Expressions, Third Eye Centre Gallery, Glasgow, Esc�cia; Disclosed Images, Ernest Museum, Budapeste, Hungria; Art Annale, Diokletian Palace, Split, Cro�cia.
1989
Experience of the object, Museum of Modern Art, Liubliana, Eslov�nia; Trigon 89, Nue Galerie, Kunstlerhaus, Graz, �ustria; Yugoslav Documenta 89, Sarajevo, B�snia; Disclosed Images, Szombathely Gallery, Szombathely, Hungria.
1987
3rd Biennial of Young Artists from Mediterranean Countries, Barcelona, Espanha.