.

On We Go
1996. Corrente de metal com alfinetes, 145X122X56 cm. (7 partes). Foto: Joshua White

 


Stay Close
1995. 230 telas pré-estendidas e com camada preparatória, 305X305X152 cm. Foto: Zindman/Fremont


In Blue
1996. Flores em seda com fios, 366X213 cm. Coleção: Ken Wong & Tina Petra. Foto: Joshua White

 



Jim Hodges

Por Julie Ault


Agendas, Jardins, Entradas

Jim Hodges tem uma sensibilidade especial para apreender a essência do universo físico, principalmente os elementos e processos que captam sua romântica e profunda imaginação. Ele traduz esse universo em formas artísticas usando materiais comuns e artesanais em geral associados à decoração, como flores, guardanapos de papel, correntes, cachecóis de seda e lenços de papel. Hodges quase sempre trabalha no sentido de apreender sua relação direta com a temporalidade e a solidez por meio de uma miríade de processos artísticos que atuam como se fossem reencenações e ensaios simbólicos. Esses aspectos do tempo e do espaço inspiram tanto a forma quanto o tema que são indistinguíveis em sua arte. Transparentes, aéreos, voláteis... muitos de seus trabalhos são acúmulos de material efêmero coletado e montado de modo a evocar uma reprodução infinita e uma frágil perpetuidade.

Algumas das formas preferidas habitadas por Jim Hodges nos remetem à sua complexa perspectiva sobre o tempo. Há anos ele tem feito desenhos de flores em pequenos guardanapos brancos de papel, iguais aos utilizados em lanchonetes, usando canetas esferográficas. Seu estilo varia desde esboços inacabados até trabalhos que demonstram grande habilidade. Feitos sobre materiais tradicionais, esses desenhos seriam "competentes e belos" sobre guardanapos - eles poderiam facilmente ser descartados ou guardados. Cada flor torna-se um tesouro do dia a dia, de sonhar com os olhos abertos e dos desejos. Em seguida Hodges os agrupa de determinada forma utilizando uma emoção lógica revelada pelos títulos (A Diary of Flowers/ When We Met) e pelas combinações de cores (A Diary of Flowers/ Black and Blue). Às vezes dispostos com grandes intervalos entre si ou em formas densas e volumosas, esses buquês de esboços são organizados segundo uma camada inferior de acordo com uma estrutura intangível. Denominados diarlex, trata-se de agendas de tempos privados, reconstituídas de acordo com as formas simbólicas que adquirem o aspecto de publicações. Hodges publica experiências e observações pessoais, construindo narrativas de interioridade que se transformam em espaço para o desenvolvimento de emoções mútuas e o reconhecimento do desejo. Apesar de os calendários serem objetos expostos normalmente, uma agenda mostrada cruamente em uma parede para escrutínio público é uma idéia que incomoda e provoca medos genéricos e particulares de invasão de privacidade. Mas a leitura psicológica das intervenções feitas por Hodges nunca é revelada. The Diaries of Flowers são representações sistemáticas de dias que se tornam meses, que por sua vez passam a ser anos, que estão sempre passando, que estão sempre por vir. Nesse projeto ele enfoca um desejo compartilhado por muitos de fazer do infinito algo controlável, e de dar uma marca pessoal ao tempo. O tempo perpetua-se, é o que podemos imaginar a partir dos processos repetidos por Hodges ao fazer esses trabalhos.

Outro tema revisitado por Hodges são as teias de aranha que ele confecciona com correntes de prata. As teias são de tamanhos variados e às vezes são apresentadas solitariamente, em pares ou entrelaçando-se e passando a formar configurações. Muitas vezes emergem de cantos, à primeira vista escondidas, fazendo-se presentes por meio de uma imagem aqui e ali. Essas peças também fazem referência ao tempo, ao designar e monitorar sua passagem. Seu trabalho mais recente, On We Go, possui sete camadas, a menor com alguns milímetros e a maior com 1,5 metro de diâmetro. Essa peça se refere à abundância de tempo e de energia industrial, de autoperpetuidade, de todo o tempo do mundo. Hodges traduz a vulnerabilidade de uma teia úmida e prateada transformada em um material durável como se estivesse forçando sua permanência. Tecer teias é uma metáfora adequada para um artista que está diretamente envolvido em compreender e reconciliar a temporalidade.

Uma pétala, uma folha, uma flor... flores, milhares delas agrupadas formam uma estranha paisagem; maciças superfícies flutuantes entre o aqui e um lá que está sempre presente. Horizontais, gigantes, aéreas, às vezes remetendo a todo o espectro de cores (From Our Side), outras formando manchas monocromáticas coerentes. Esses campos não estão ligados ao solo, são flores sem raízes visíveis, somente flores.

Há muito os jardins têm sido considerados locais ideais para contemplação, locais para se perder e se reencontrar. "Coloque isso sobre mim quando eu morrer", ouvi alguém dizer por ocasião da primeira exposição de Already Here/Already There, um grande campo de flores brancas instalado no centro de uma sala vazia. Uma cama de flores. Como o paraíso. Uma manifestação similar seguiu-se a essa, só que basicamente com cores azuis (In Blue). Quem entende de flores sabe que as azuis são difíceis de encontrar. Portanto, um toque de artificialidade está em jogo aqui. In Blue cria uma atmosfera sobrenatural. Você pode percorrer mentalmente esses `jardins´ e fisicamente andar ao lado deles, contorná-los, e às vezes captar uma visão de um outro lado, fragmentado e distante como se fosse visto através de uma treliça ou de um conjunto de árvores.

Outra forma recorrente usada por Hodges são telas de cerca de meio metro quadrado agrupadas de modo a formar estruturas arquitetônicas com entradas e saídas e passagens para chegar e sair. Pode-se andar através dessas pinturas, com sua brancura inalterada - um espaço projetado que pode ser facilmente apropriado pelo espectador. O que ocorre quando nos são negados objetos familiares que compõem uma imagem, que preenchem uma sala? Stay close (fique por perto), você sussurra ao seu amigo ao embarcar em uma jornada ameaçadora; um longo hall com uma entrada e uma saída. Outros espaços incluem um `xis´ arquitetônico com quatro portas, uma conduzindo à outra em uma eterna repetição circular; uma estrutura rasa semelhante a uma caixa com três lados com uma porta para atravessá-la e outra para deixá-la. Estamos sempre chegando e saindo, entre uma sensação particular de apreensão de expectativas experimentadas e de desejos, e conseqüentemente de experiências vividas de encontros e de aventuras.

Espaços de possibilidade, imaginários ou não, parecem retroceder de nossa vista à medida que ficamos mais velhos. As salas passam a acumular memórias, lembranças e regras. As emoções são aberturas que conduzem a passagens que levam a salas escondidas com conteúdos complexos. Nessas peças o ato de entrar, de viajar para o desconhecido e sair é encenado. O próprio palco é uma metáfora de passagens emocionais, passando ou atravessando algo. A uma mesma pintura, escultura e meio ambiente, estas peças são suportes para a experiência, um parêntese em que podemos viajar conscientemente.



Cronologia


Nasceu em 1957 em Spokane, Washington, Estados Unidos. Concluiu seu bacharelado em belas-artes em 1980, no Fort Wright College em Spokane. Em 1986, tornou-se mestre em belas-artes pelo Pratt Institute de Nova York, onde reside e trabalha.


Exposições individuais

1996
Yes, Marc Foxx, Santa Mônica, Estados Unidos; States, The Fabric Workshop & Museum, Filadélfia, Estados Unidos.
1995
Jim Hodges, CRG, Nova York, Estados Unidos; Center for Curatorial Studies, Bard College, Annandale-on-Hudson, Nova York, Estados Unidos.
1994
Everything for You, Interim Art, Londres, Inglaterra; A Diary of Flowers, CRG, Nova York, Estados Unidos.
1992
New Aids Drug, Het Apollohuis, Eindhoven, Holanda.
1991
White Room, White Columns, Nova York, Estados Unidos.
1989
Historia Abscondita, Gonzaga University Gallery, Spokane, Estados Unidos.
1986
Master of Fine Arts Thesis Exhibition, Pratt Institute, Nova York, Estados Unidos.


Exposições coletivas

1996
Masculine Measures, John Michael Kohler Arts Center, Sheboygan, Wisconsin, Estados Unidos; Swag & Puddle, The Work Space, Nova York, Estados Unidos; Galerie Ghislaine Hussenot, Paris, França.
1995
New Works, Feigen Gallery, Chicago, Estados Unidos; Late Spring, Marc Foxx, Los Angeles, Estados Unidos; Avant-Garde Walk a Venezia, Veneza, Itália; Mon Voyage à New York, Galerie Elizabeth Valleix, Paris, França; Soucis de Pensées, Art: Concept/Olivier Antoine, Nice, França; Material Dreams, Gallery Takashimaya, Nova York, Estados Unidos; In a Different Light, University Art Museum, University of California, Berkeley, Estados Unidos; Sex Sells, The University Art Museum and Pacific Film Archive, Rena Bransten Gallery, San Francisco, Estados Unidos.
1994
It´s How You Play the Game, Exit Art/The First World, Nova York, Estados Unidos; Ethereal Materialism, Apex Art, Nova York, Estados Unidos; DYAD, Williamsburg, Brooklyn, Estados Unidos; Les Fleurs de Mon Jardin, Galerie Alain Gutharc, Paris, França; Desire, Charles Cowles Gallery, Nova York, Estados Unidos; A Bouquet for Juan, Nancy Hoffman Gallery, Nova York, Estados Unidos; Who Chooses Who, The New Museum of Contemporary Art, Nova York, Estados Unidos; A Garden, Barbara Krakow Gallery, Boston, Estados Unidos.
1993
Jim Hodges and Bill Jacobson, Paul Morris Fine Art, Nova York, Estados Unidos; Our Perfect World, Grey Art Gallery, Nova York, Estados Unidos; Opening Exhibition, Rowles Studio, Hudson, Nova York, Estados Unidos; The Animal in Me, Amy Lipton, Nova York, Estados Unidos; Arachnosphere, Ramnarine Gallery, Long Island City, Estados Unidos; Beyond Attrition: Art in the Era of Aids, Washington Project for the Arts, Washington DC, Estados Unidos; The Eidetic Image: Contemporary Works on Paper, Krannert Art Museum, University of Illinois at Urbana-Champain, Illinois, Estados Unidos; Museo Statale d´Arte Mediovale e Moderna, Arezzo, Itália; It´s Really Hard, Momenta Art, Nova York, Estados Unidos; Jim Hodges, Brooke Alexander, Nova York, Estados Unidos; Outside Possibilities, The Rushmore Festival, Woodbury, Nova York, Estados Unidos; Sculpture & Multiples, Brooke Alexander, Nova York, Estados Unidos; Selections/Spring 93, The Drawing Center, Nova York, Estados Unidos.
1992
Collector´s Show, Arkansas Arts Center, Little Rock, Arkansas, Estados Unidos; Healing, Rena Bransten Gallery, San Francisco, Estados Unidos; An Ode to Gardens and Flowers, Nassau County Museum of Art, Roslyn Harbor, Nova York, Estados Unidos; The Temporary Image, S.S. White Building, Filadélfia, Estados Unidos; Update 1992, White Columns, Nova York, Estados Unidos.
1991
Black and White, Nancy Hoffman Gallery, Nova York, Estados Unidos; Lyric, Uses of Beauty at the End of the Century, White Columns, Nova York, Estados Unidos.
1990
Auction for Action, Act-Up Benefit, Nova York, Estados Unidos; Jim Hodges, David Nyzio, Vincent Shine, Postmasters, Nova York, Estados Unidos; Partnership for the Homeless with Aids, Christie´s, Nova York, Estados Unidos; Reclamation, Momenta Art Alternatives, Filadélfia, Estados Unidos.
1989
Selections, Artist´s Space, Nova York, Estados Unidos.
1988
Installation, Momenta Art Alternatives, Filadélfia, Estados Unidos


Prêmios

1992
Mid Atlantic Arts Foundation, NEA; Paintings and Works on Paper Regional Fellowship.
1994
Penny McCall Foundation Grant.
1995
The Louis Comfort Tiffany Foundation.