| Por Pablo J. Rico
Em 30 de mar�o de 1746 nascia Francisco de Goya. Sua vida e singular aventura criativa se desenvolveriam numa �poca de extremada convuls�o social, pol�tica e cultural. Na passagem do s�culo XVIII para o XIX, Espanha, Europa e Am�rica viveriam profundas transforma��es e mudan�as em suas estruturas fundamentais e o triunfo e a paulatina consolida��o de um novo estado de ser e entender o mundo: o da modernidade.
Entre 1746 e 1828, datas que demarcam a vida de Goya, ir�o suceder acontecimentos de significado especial para a hist�ria da humanidade e, em particular, do mundo ocidental: a publica��o de L'Enciclop�die (1751), o processo que levou � independ�ncia dos Estados Unidos da Am�rica e sua Constitui��o (1787), a queda da Bastilha em Paris e a Declara��o dos Direitos do Homem na Fran�a (1789), a execu��o dos monarcas franceses (1793), o triunfo de Napole�o frente ao Diret�rio (1799) e sua coroa��o como imperador (1803), as guerras napole�nicas em toda a Europa, a abdica��o do rei da Espanha, Carlos IV, e o in�cio da Guerra de Independ�ncia na Espanha (1808), a abdica��o de Napole�o (1812), a celebra��o do Congresso de Viena e a constitui��o da Santa Alian�a (1815), sucessivas proclama��es de independ�ncia na Am�rica espanhola e portuguesa - Venezuela e Col�mbia (1811-1819), Argentina (1816), M�xico (1821), Brasil (1822)...
Se estes acontecimentos representam por si a express�o de um processo de transforma��o t�o radical, n�o menos significativo � o fato de que nesse per�odo coincidem as vidas e as atividades criativas de personagens de grande envergadura intelectual: Montesquieu, Goethe, Voltaire, Rousseau, Winckelmann, D'Alembert, Diderot, Hegel, Kant, Schiller, Schopenhauer, Comte, Pushkin, Balzac, Novalis, Victor Hugo, Chateaubriand, Feuerbach, Byron, W. Scott, Feijoo, Samaniego, Jovellanos, entre outros. Ou acontecem extraordin�rios avan�os cient�ficos e tecnol�gicos gra�as �s investiga��es de Lineu, Lavoisier, Laplace, Jenner, Malthus, Humboldt, Darwin, Stephenson, Niepce etc. No �mbito da m�sica, coincidem as cria��es de Mozart, Haydn, Beethoven, Schubert, Schumann, Chopin, Berlioz, Rossini, Verdi, Wagner, entre outros. No campo mais espec�fico da pintura tamb�m s�o contempor�neos de Goya - em per�odos mais longos ou curtos, conforme o caso - artistas t�o destacados e influentes como: Giaquinto, Tiepolo, Guardi, Piranesi, Mengs, Gainsborough, Reynolds, Hogarth, Constable, Turner, Fragonard, David, Ingres, Delacroix, G�ricault, Corot.
Sem d�vida, a obra de Goya e sua evolu��o est�tica peculiar foram essencialmente influenciadas por esses tempos de profundas transforma��es e expressa - como em nenhum outro criador contempor�neo - as contradi��es pr�prias dessa �poca em que "viveu perigosamente". Sua aventura pessoal e criativa, sua dramaturgia existencial singular, � a representa��o exata de uma emotiva e dolorosa conquista da liberdade a partir da raz�o e da imagina��o - unidas e se alimentando mutuamente sem paradoxo poss�vel -, uma luta terr�vel e desigual pelo futuro e pela modernidade, jogando fora todo o lastro de conformismos ou convencionalismos est�reis. Goya teve a sorte - ou a desgra�a, dependendo de como se olhe - de viver em tempos e espa�os dif�ceis, em que era necess�rio tomar decis�es comprometidas e arriscadas, ou sobreviver abandonando-se �s grandes ondas da tormenta, preocupando-se unicamente em se manter � tona, esperando o temporal amainar.
� em tempos dif�ceis - quando tudo, at� mesmo o futuro, est� em discuss�o radical ou em d�vida, quando as constru��es aparentemente s�lidas e funcionais come�am a tremer desde as funda��es e a desmoronar andar por andar, fachadas e v�os de escadas, quando tudo aparece invertido e sequer nos servem os espelhos e a especula��o para salvar qualquer imagem do dia anterior, quando as palavras mudam de significado ou perdem o sentido pelo abuso que delas fazemos como �nica t�bua ilus�ria de salva��o - que ent�o encontramos alguns poucos seres excepcionais, an�nimos ou reconhecidos pela hist�ria, que conseguem articular pensamentos 'fortes' e um novo consenso a partir do qual se unem vontades e cumplicidades, com a esperan�a de construir edifica��es ideais mais resistentes (com material reciclado, salvo do desastre, ou outros novos nascidos da mais imperiosa necessidade), ou que criam poderosos buracos negros, que atraem e condensam nossa vis�o deste universo de 360 graus sem p� nem cabe�a, ou que inventam novas palavras e literaturas em que para cada significado corresponde n�o s� um conjunto de signos e sons mas tamb�m um ideograma preciso e uma partitura exata, ou experimentam com uma nova linguagem de gestos, sorrisos, olhares, com todo o corpo, sem pronunciar palavra alguma, nem verbo, nem adjetivo, nem substantivo... e para a qual n�o � necess�rio tradu��o simult�nea, nem programa interativo para aprender.
Todos os tempos e os espa�os s�o dif�ceis, sem d�vida, mas alguns mais do que outros porque neles parece que j� n�o � poss�vel o futuro ou a esperan�a. Os de Goya foram assim, como em poucas �pocas da hist�ria. Os de agora tamb�m parecem ser, porque todo mundo concordou em proclam�-lo aos quatro ventos e a construir todo tipo de frases com o aux�lio pertinente de palavras lexicamente muito pr�ximas tais como 'crise', 'ponto cr�tico' ou 'criticar', entre outras. E entre todos esses seres ousados e comprometidos, aventureiros ou valentes, que vivem no limite de suas for�as, est�o os artistas, os artes�os do pensamento, os arquitetos das id�ias, os criadores de imagens e sensa��es, os inventores de livros, os narradores de contos e os poetas do corpo, todos provocadores e terroristas da desordem estabelecida, ap�tridas, descrentes e agn�sticos de todo dogma, tamb�m de suas pobres e insignificantes seguran�as cotidianas.
Em boa parte, e com maior ou menor acerto, todo esse estado de coisas e atitudes se chamou, e se chama (apesar do sentido que se queira dar), modernidade. Os dissecadores da hist�ria tamb�m lhe deram um nome logo desvalorizado pelo abuso de sua utiliza��o num adjetivo recorrente, romantismo. Palavras, que para todos os efeitos, na pior das hip�teses podem induzir ao erro e aos preconceitos mais superficiais, mas que a urg�ncia justifica usar neste caso para falar de Goya, de sua viagem existencial e criatividade singular naqueles tempos e espa�os dif�ceis, e desde ent�o e de l� at� aqui e agora.
Goya representa a modernidade porque vive o seu tempo com absoluta entrega e generosidade. A cada transforma��o e mudan�a radical de sua �poca corresponde uma profunda como��o em sua vida pessoal, em seu car�ter, em sua cria��o art�stica. Goya n�o se reserva nenhuma for�a, nenhum pretexto, frente a cada tremor da terra debaixo de seus p�s. Embora fosse educado segundo as normas, o modelo bem definido do classicismo, abandona-se � desordem do individual e do psicol�gico e � cat�strofe do desconhecido. Ele sabe, ou intui, que em tempos dif�ceis cada um tem de velar por sua pr�pria salva��o, buscar seu pr�prio caminho sem distra��es in�teis nem hero�smos est�reis; sua rela��o com outros n�ufragos deve ser a da cumplicidade, a da esperan�a e ilus�o compartilhadas na salva��o daqueles que seja poss�vel salvar e tenham for�as para consegui-lo. Embora possa parecer paradoxal, essa atitude ego�sta, sobre-humana, do individualismo levado �s �ltimas conseq��ncias, comporta uma grande demonstra��o de honestidade, de conduta �tica frente ao companheiro de desventura. Mais do que nunca se � consciente de que o outro est� em condi��es parecidas, que a sua pr�pria salva��o depende tanto de voc� quanto da resist�ncia do outro, nunca de sua elimina��o, da concorr�ncia desleal ou do ardil, do homic�dio. Os n�ufragos s�o totalmente livres para si mesmos, a eles cabem as �nicas decis�es poss�veis, o suic�dio da vontade ou a resist�ncia sem condi��es. Para eles � necess�ria, entre outras coisas, al�m da fortaleza de car�ter e condi��es naturais ou recursos aprendidos com mestria, uma extrema concentra��o em cada epis�dio do drama pessoal ou criativo em que se est� representando a si pr�prio, vivendo-o como se fora o �ltimo momento de nossa prec�ria exist�ncia. E Goya o viveu de maneira t�o radical como s� vivem os surdos, concentrado em suas mais �ntimas respira��es e movimentos, nas batidas de seu cora��o, conhecedor do significado das palavras por leitura labial, pelo movimento dos olhos, pela cor das faces... Nesse autismo vivencial e criativo s� se pode estar seguro do que est� dentro, mais para l� do profundo, ou do que est� excepcionalmente fora de n�s e chama nossa aten��o e nos distrai para sempre. A �nica sensa��o semelhante � de possuir essencialmente e absolutamente � a de sentir-se possu�do e escravo do olhar de outro desconhecido para o qual n�o somos mais do que um objeto de seu desejo ou desprezo.
No meu entender, Goya representa e d� carne a esta met�fora da vida rom�ntica e a modernidade, tanto em sua concep��o gen�rica quanto no modo de ser e estar no mundo. Herdeiro do classicismo e da academia, n�o duvida em despojar-se de lastros no caminho e impedimentos convencionais para lutar mais intensamente em favor de sua pintura. Sua ambi��o de alcan�ar lugares de m�rito e prest�gio, independ�ncia econ�mica, s� tem sentido a partir do momento em que os consegue e ao uso que d� a sua maior liberdade e capacidade de influir. Goya ascende na escala social �s alturas do poder, para da� fazer mais aud�vel e completa sua mensagem de liberdade e agnosticismo. Cada satisfa��o mundana, cada reconhecimento da sociedade estabelecida, representa para Goya uma a��o realmente arriscada, um ciclo de pinturas evidentemente comovedoras e inquietantes. Ante a rejei��o, a persegui��o ou o esquecimento, Goya cresce para dentro, aprofunda at� os limites da pr�pria raz�o ou da alheia, se fecha num mist�rio obscuro do qual sabe que s� sair� com o passar do tempo, mais al�m da pr�pria vida. Como resposta a seus contempor�neos, oferece-lhes imagens e argumentos que os comovem e alteram a percep��o que t�m das coisas; face a sua ignor�ncia ou desprezo, sua linguagem se torna mais herm�tica, mais cruel e terr�vel para seus ouvidos deteriorados. Ele sabe que o futuro chegar� sem que nada possa impedi-lo, mais cedo ou mais tarde; para essa id�ia que lhe d� esperan�a e raiva, por sua vez, por n�o ter tempo para viv�-la, faz suas pinturas e desenhos mais estremecedores, suas confiss�es mais �ntimas - Los Disparates, Las Pinturas Negras -, e as cria certo de que jamais inaugurar� essas imagens para ningu�m al�m de sua pr�pria sombra de tristeza e melancolia.
Viver seu tempo, representar a modernidade, � tamb�m para Goya descrev�-lo em primeira pessoa. "Yo lo he visto", escreve embaixo de uma cena brutal de seus Desastres de Guerra; "A�n aprendo", dizia dele mesmo ao final de seus dias. Ver e aprender da vida foram tarefas a que se abandonou Goya como homem comprometido com seu tempo. Como artista, criou imagens para a mem�ria e a hist�ria. N�s, seres humanos, seguramente somos os �nicos seres que fazemos perguntas, que sabemos que a vida � uma sucess�o de perguntas encadeadas ou uma �nica pergunta, que resume as anteriores, flanqueada por imensos sinais de interroga��o. Um artista n�o s� deve fazer-se perguntas, como deve - acima de tudo - respond�-las. Suas perguntas ser�o, com maior ou menor sucesso, o alimento e a motiva��o de novas d�vidas e perguntas. Um artista, um escritor, um criador em qualquer �mbito, sabe que suas respostas nunca deixar� indiferentes aqueles que contemplam ou recebem suas obras. Goya foi desde sempre consciente disso e principalmente, a partir da idade madura, de sua capacidade de inquietar com suas pinturas, de evocar com elas o desconhecido ou aquela insignificante lembran�a pessoal avaramente guardada e sem testemunhos, ou de nos empurrar ao limite da realidade e da raz�o.
Goya foi, possivelmente, at� sua �poca, quem melhor soube explorar esses limites por tr�s dos quais se sente o del�rio do irreal e irracional, o mist�rio inomin�vel. Tamb�m nesse aspecto substancial da condi��o humana - o do 'sonho da raz�o' - Goya inaugurou uma nova forma de ser e de se expressar. Antes que a psican�lise recebesse os fundamentos te�ricos e emp�ricos da ci�ncia especulativa, ou a biologia ou a qu�mica explicassem os mecanismos da conduta humana relacionando-os com a estrutura gen�tica ou o meio ambiente, Goya j� tinha investigado no sil�ncio da sua solid�o as verdades de sua ang�stia, as ra�zes e as ramifica��es de sua insatisfa��o. Muito poucos homens de ci�ncia ou esp�rito chegaram t�o profundamente onde chegou Goya em sua peregrina��o e com meios t�o escassos e fr�geis.
N�o � estranho, pois, que muitos dos artistas e criadores mais comprometidos com seus respectivos 'tempos dif�ceis', sob uma conceitua��o radical de ser e expressar a 'modernidade', tenham tido como uma de suas refer�ncias fundamentais a experi�ncia pessoal e as imagens de Goya. Em alguns casos, os paralelismos e as evid�ncias nascem da seguran�a de suas pr�prias imagens; em outros, eles mesmos se referiram � essa fraternidade ou filia��o de interesses. Se podemos dizer que Goya � um rom�ntico avant la lettre, n�o se pode dizer menos de alguns de seus contempor�neos mais jovens e nos quais se reconhece - Delacroix, G�ricault, Alenza, Eugenio Lucas. Se um dos princ�pios fundamentais da modernidade � viver intensamente o seu tempo, enfrentar a realidade com todas as conseq��ncias, est� claro que seus retratos psicol�gicos ou a cr�tica exemplar e de valor moralizante, que d�o sentido a sua s�rie de Los Caprichos, serviram de refer�ncia ou foram um excelente ponto de partida para o Realismo pict�rico, para o Impressionismo ou para o mais exacerbado Expressionismo - como reconhecemos em Daumier, Courbet, Manet, Degas, Van Gogh, Munch, Ensor, Picasso, Grosz, Beckmann, Bacon ou Warhol, entre outros; ou, em sua vertente mais documental e ideol�gica - como em Los Desastres de la Guerra -, seu rastro e influ�ncia podem ser seguidos nos mesmos Manet e Picasso, assim como pelos muralistas mexicanos Rivera e Orozco ou Guayasam�n, por exemplo.
Como observamos anteriormente, Goya inaugura tamb�m um novo territ�rio de cria��o no mundo do irreal e do psicol�gico. Sem d�vida, al�m de outras not�veis refer�ncias cient�ficas, Goya esteve na mirada de grande parte dos surrealistas, principalmente Dal�, Bu�uel, Mir� e Masson e, mais tarde, de outros artistas do p�s-guerra n�o classific�veis, como Vostell e Polke, na Alemanha, ou Saura e Canogar e, mais recentemente, V. Mira, na Espanha. Al�m disso, as experi�ncias mais essenciais e abstratas da pintura do s�culo 20 tiveram em algum momento feliz um ponto de partida 'goyesco' em suas composi��es ou em sua liberdade gestual e formal ou na quase absoluta monocromia expressiva de suas Pinturas Negras. As pinturas de muitos dos abstratos espanh�is de p�s-guerra - Saura, Millares, Canogar, Viola, S. Victoria, Tapies, Broto - foram relacionadas com Goya em algum momento, assim como as de Hartung, na Fran�a, ou Motherwell, nos Estados Unidos.
Pelo que foi mostrado, parece �bvio concluir este ensaio apelando para os aspectos que fazem de Goya e sua pintura da maturidade um paradigma da modernidade, possivelmente a primeira modernidade dada a consci�ncia com a qual viveu aqueles tempos, e uma refer�ncia fundamental ainda hoje quando se completam 250 anos de seu nascimento. Essas 'vidas exemplares', por�m, s�o t�o necess�rias que transcendem sua pr�pria realidade e comovem nossa vis�o e pensamento de t�o longe... Quando parece que essa �poca chega ao fim e que o que est� por vir arrasar� qualquer impulso rom�ntico que permane�a de p�, seria bom recuperar de nossa lembran�a quase intacta nomes e imagens que tornaram poss�vel essa bonita aventura de viver mais intensamente nossa condi��o essencial de n�ufragos com esperan�a. Porque se h� futuro...
As Gravuras de Goya
No extraordin�rio conjunto das obras realizadas por Goya ao longo de seus quase 60 anos de ininterrupta atividade criativa se destacam, por in�meros motivos, as s�ries de estampas gravadas. Ao todo, foram catalogadas 270 gravuras, �s quais se somam outras 18 litografias realizadas por Goya durante sua estada em Bordeaux, nos �ltimos anos de vida, onde experimentou a ent�o revolucion�ria t�cnica inventada pelo checo Aloys Senefelder. Esse grande n�mero de gravuras e litografias - e a t�cnica magistral aplicada por nosso artista - � realmente �nico na arte espanhola, inclusive na europ�ia. S� os trabalhos gr�ficos de D�rer, Rembrandt, Canaletto ou Piranesi - entre os hist�ricos - ou Picasso e Mir�, entre os contempor�neos, podem ser comparados aos de Goya.
No entanto, e isso � mais excepcional, se ampliarmos esta cifra com as outras centenas de desenhos preparat�rios realizados pelo pintor, alguns dos quais logo descartados, e todos os demais que foram gerados por suas gravuras e litografias. A totalidade dessa magn�fica obra de desenho e gr�fica nos proporciona valiosas refer�ncias do processo de cria��o de imagens seguido por Goya e do de transfer�ncia para a chapa de cobre para gravura dos desenhos realizados anteriormente (algumas vezes, com quase total exatid�o; outras, incorporando mudan�as substanciais no momento de riscar a chapa). Tamb�m reconhecemos nas gravuras de Goya a progressiva experimenta��o do artista trabalhando de maneira mista e simultaneamente com �gua-forte, a �gua-tinta - t�cnica que era grande novidade na �poca -, e as qualidades e retoques com o buril, a ponta-seca, para conseguir efeitos semelhantes aos idealizados e conseguidos em seus desenhos preparat�rios (com tinta e pincel).
O virtuosismo alcan�ado em suas 's�ries maiores' de gravuras - Los Caprichos, Los Desastres de la Guerra, La Tauromaquia e os Disparates -, a precis�o das linhas e do desenho, a obten��o de massas de grande densidade de preto e cinza, os efeitos de luz e sombra, o equil�brio entre cheios e vazios fazem dessa cria��o gr�fica de Goya uma das mais significativas contribui��es de sua genial obra art�stica e da arte do seu tempo.
Embora o aspecto estritamente gr�fico seja importante, o maior valor e interesse de suas 's�ries maiores' reside na inven��o de cada uma das imagens que cont�m, assim como seu significado como testemunho visual de uma �poca: seja uma narra��o hiper-realista (em Desastres de Guerra), cr�tica social e caricatura moralizante (em Los Caprichos), descri��o documental (em Tauromaquia) ou del�rio surrealista do pr�prio pintor (no caso de Los Disparates). Poucas vezes na hist�ria da arte encontramos um conjunto t�o extraordin�rio de imagens como nessas s�ries idealizadas e criadas por Goya, nas quais h� tanto para ver quanto para refletir e aprender.
Sem d�vida, a extrema concentra��o de Goya para as gravuras e em sua obra, em geral, a partir de 1797, guarda uma estreita rela��o com sua surdez, provocada pela grave enfermidade sofrida pelo artista em 1792. Esta profunda concentra��o e ensimesmamento t�m sua melhor met�fora visual e mais espl�ndida realidade nas imagens de suas gravuras. Tratam-se de imagens muito precisas, inclusive naquelas em que o mist�rio ou seu car�ter irracional oferecem uma maior ambig�idade de significado: as figuras est�o decididamente individualizadas em seus gestos e atitudes pessoais, as composi��es foram cuidadosamente desenhadas para fixar a aten��o do espectador e ressaltar os detalhes simb�licos ou narrativos, as cenas foram muito bem pensadas, chegando a um equil�brio exato na dramaturgia das mesmas, uma rela��o ponderada entre a a��o dos personagens e o seu entorno com o espa�o.
A concentra��o alcan�ada por Goya pode ser apreciada tamb�m - sendo estritamente necess�ria para obter os melhores resultados - no car�ter minucioso das t�cnicas de gravura utilizadas pelo mestre. Primeiro, deve-se fazer o desenho preparat�rio, geralmente com tinta aguada e pincel; a seguir deve-se transferir esse desenho para a chapa (geralmente colocando o desenho sobre a chapa e submetendo-o, em seguida, � prensa, de modo que fique impresso muito ligeiramente e preparado para o posterior repasse com o buril). A chapa deve ser preparada com precis�o, com a densidade certa de resina e aguada de tinta especial, no caso da t�cnica de �gua-tinta, ou com o verniz de prote��o sobre o qual ser� riscado o desenho, no caso da �gua-forte. O desenho deve ser direto, o que requer uma defini��o pr�via; sem erros, visto que toda linha ou sinal ficam registrados. � necess�rio tamb�m controlar a press�o da prensa, ajust�-la ao m�ximo, para conseguir todas as qualidades entesouradas pela chapa sob o efeito do �cido e a posterior tintagem. Trata-se, sem d�vida, de um dos procedimentos art�sticos mais complexos e que requer exatid�o e min�cia absolutas e consider�veis conhecimentos t�cnicos.
Mas n�o s� nos aspectos antes citados podemos reconhecer a profunda seriedade de Goya e a intensidade de sua cria��o. Tamb�m a descobrimos, supreendendo-nos muito, nos temas escolhidos e em sua reflex�o pessoal ou descri��o dos mesmos. No caso de Los Caprichos - a s�rie mais pr�xima de sua grave enfermidade e dos primeiros anos de surdez -, Goya faz uma an�lise personal�ssima, precisa e profunda, de alguns dos assuntos significativos de sua �poca que representam o estado social do Antigo Regime j� em decad�ncia, o qual o pintor e muitos outros intelectuais liberais cultos combatiam e desejavam reformar. Dificilmente pode-se alcan�ar com uma imagem - e aqui se compreende de maneira excepcional a frase uma imagem vale mais do que mil palavras - tanta densidade expressiva e narrativa para ilustrar as causas e conseq��ncias das fraquezas, dos convencionalismos e costumes, objetos da cr�tica de Goya. E com a mesma intensidade e precis�o quando se trata de uma cr�tica mordaz �s fraquezas e preocupa��es materiais do clero, ou mesmo ao estado clerical, nas cr�ticas � nobreza ou �queles que aspiram ser confundidos com ela ou contra o casamento de conveni�ncia, a prostitui��o etc.
A densidade visual e a intensidade expressiva caracter�sticas do Goya gravador podem ser reconhecidas novamente em Los Desastres de la Guerra. Poucos s�o os exemplos da hist�ria da arte nos quais encontramos um documento visual t�o descritivo e realista, expressivo e comovente, ou dramaticamente ver�dico como o que nos oferece Goya sobre os acontecimentos relacionados com a Guerra de Independ�ncia Espanhola frente � invas�o francesa. A postura pessoal e a op��o ideol�gica de nosso pintor nessas imagens s�o de relativa neutralidade com rela��o a qualquer dos lados litigantes - representando por igual excessos e viol�ncias desmedidos executados por seus respectivos protagonistas, que aparecem muitas vezes de maneira an�nima -, mas radical e emotivamente comprometidos quando denunciam nas cenas selecionadas todo sofrimento e barb�rie que as guerras provocam e a viol�ncia exercida com total impunidade e para os quais n�o cabe nenhuma justificativa. O car�ter de documento dos horrores da guerra permanece quase insuper�vel, nem sequer igualado por document�rios fotogr�ficos ou televisivos de nossa �poca. Essa intensifica��o dos valores anteriormente assinalados talvez tenha muito a ver - al�m dos recursos t�cnicos utilizados magistralmente por Goya - com o sentido de testemunho que nosso artista lhes deu. Goya afirma categoricamente em uma de suas estampas: "Eu vi". Nessa afirma��o, na vontade de comunicar ao espectador seu pr�prio horror, sua experi�ncia ante os horrores da guerra, como uma cerim�nia selvagem de crueldade e viol�ncia, � um dos principais aspectos de sua concep��o da modernidade, do compromisso insuborn�vel e do risco temer�rio diante do seu tempo. Seu principal valor se fundamenta na interven��o de sua pr�pria vis�o, na conclus�o de tudo o que chamamos de subjetivismo como �nfase da pr�pria exist�ncia (a do artista criador e da testemunha) frente a ele mesmo, ao mundo, � hist�ria.
A mesma densidade visual e o car�ter documental reconhecemos em sua terceira s�rie de gravuras, La Tauromaquia, embora nesse caso se trate de um tema muito menos dram�tico, um assunto popular e festivo da m�xima predile��o de Goya: a hist�ria e o ritual das touradas na Espanha. Qualificando-as como festivas e menos dram�ticas, quero frisar de forma relativa o sentimento que Goya, seus contempor�neos - e a maior parte dos aficionados at� nossos dias - t�m em rela��o a esse espet�culo quase m�tico, baseado no enfrentamento cerimonial entre o touro e o toureiro. Essa afirma��o referencial n�o polemiza outras avalia��es e sensa��es que podem provocar as touradas naqueles que s�o alheios �s ra�zes e c�digos de significado desta 'cultura dos touros', que podem ver nela uma cruel e desigual carnificina. Certamente Goya era um excelente e aficionado conhecedor da hist�ria real ou idealizada das corridas de touros, assim como dos diferentes lances de uma tourada ou maneiras diferentes e sucessivas de enganar e domesticar o animal para, finalmente, infligir-lhe a morte.
Como salientei antes, as a��es do toureiro com o touro s�o muito mais que um jogo ou exerc�cio circense. Nelas, al�m da liturgia cerimonial do sacrif�cio (dotada de um simbolismo complexo) e de uma est�tica realmente sutil e po�tica, h� um certo risco de morte para o toureiro e para todos que participam da corrida. Todos esses valores e aspectos formais e simb�licos est�o desenvolvidos por Goya na s�rie com grande expressividade, fidelidade documental e avan�ada plasticidade. A coreografia do toureiro e seus ajudantes, a sensa��o de perigo, a descri��o realista dos movimentos e da ferocidade do animal, a condi��o de cen�rio teatral da pra�a de touros, a presen�a (ou aus�ncia inquietante) do p�blico, seu anonimato, a morte do animal ou do homem foram tratados pelo artista com grande conhecimento e experi�ncia visuais, s�ntese descritiva, e expressiva precis�o.
Na s�rie Los Disparates, a proverbial concentra��o e a precis�o de Goya alcan�am o mais alto grau, embora em sentido diametralmente oposto. Nosso artista chegou quase que ao final de seus dias; para tr�s ficaram ilus�es e esperan�as, tanto pessoais quanto sociais e pol�ticas.
Sua vis�o de mundo e reflex�es �ntimas sobre a vida passada est�o imbu�das de amargura e melancolia. A realidade o golpeia a cada dia com toda a for�a, e ele se sente acossado, maltratado, inseguro. N�o � de estranhar que sua pintura e as imagens que comp�em a �ltima s�rie de gravuras representem esse mundo atormentado e expressem a necessidade vital do velho Goya de criar outros mundos irracionais e ilus�rios. N�o se trata, por�m, de um 'mundo feliz' idealizado. Ao contr�rio, s�o cen�rios e cenas cheios de mist�rio, inquietantes, surpreendentes pela irrealidade das situa��es, dos personagens. T�o fundo Goya explorou a si mesmo, resgatando essas imagens inveross�meis, que seu verdadeiro significado ainda resulta distante, difuso, incompreens�vel para nosso prec�rio pensamento racional.
A mestria t�cnica tamb�m amplifica a expressividade das imagens, e sua exatid�o desestabiliza mais ainda a nossa percep��o e o significado que gostar�amos de lhes dar. O grotesto, o disparatado, o alucinante, o territ�rio desconhecido dos sonhos e o subconsciente reproduzem-se aqui pela primeira vez com formas t�o contundentes, precisas e livres como nenhum artista at� aquela �poca havia atrevido. Sua influ�ncia foi evidente na arte moderna, especialmente na sua vertente mais irracional e surrealista.
Por �ltimo, e como resumo meramente descritivo, s� nos falta assinalar que as quatro 's�ries maiores' de gravuras realizadas por Goya t�m extens�es e procedimentos t�cnicos muito diferentes.
A s�rie Los Caprichos foi preparada e realizada entre 1797 e 1799. Foi anunciada e colocada � venda nesse �ltimo ano, para logo ser retirada pelo artista poucos meses depois por receio de ser acusado por seu conte�do, ap�s ter perdido o apoio dos ministros liberais amigos seus. Em 1803 as chapas originais, e boa parte dos exemplares n�o vendidos, foram presenteadas ao rei em troca de uma pens�o vital�cia. Parece em princ�pio que seriam 72 estampas, mas logo as ampliou definitivamente para 80. A esta s�rie foram acrescentadas outras cinco gravuras rejeitadas pelo artista, das quais s� nos resta uma prova.
A segunda s�rie editada, La Tauromaquia, foi feita seguramente entre 1814 e 1816. Goya deve ter preparado 44 l�minas, pois esse � o n�mero de gravuras que se conhece da s�rie, mas no final, ao edit�-las e coloc�-las � venda, s� havia 33 estampas gravadas. Tem-se conhecimento de outras tr�s provas adicionais.
Los Disparates, ou Prov�rbios, como tamb�m � conhecida a s�rie, foi realizada entre 1819 e 1823. Como Los Desastres de la Guerra permaneceu na clandestinidade em sua casa, sem ser editada. S�o conhecidas 22 chapas. H� tamb�m outros oito desenhos preparat�rios adicionais dos quais se ignora se foram utilizados posteriormente para prepara��o de novas chapas.
A s�rie Los Desastres de la Guerra foi realizada entre 1810 e os �ltimos anos de sua vida. Goya guardou-as para sua seguran�a e jamais as editou, salvo algumas provas. A academia concluiu a primeira edi��o em 1863. A s�rie � composta de 80 l�minas, �s quais devemos acrescentar outras duas adicionais. |
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| 1746 Em 30 de mar�o, nasce no pequeno povoado de Fuendetodos, em Zaragoza, Francisco de Goya, sexto filho do casamento de Jos� Goya - artes�o e mestre dourador - e Engracia Lucientes, de fam�lia pertencente � pequena nobreza aragonesa. Ap�s seu nascimento na casa dos av�s maternos, Goya vive a primeira parte da vida - cerca de 30 anos - em Zaragoza. Ali come�a seus primeiros estudos, inicia sua forma��o pict�rica (como aprendiz no ateli� do pintor Jos� Luz�n) e faz seus primeiros projetos art�sticos. 1770/71 Viaja para a It�lia, para completar sua forma��o, e reside durante longa temporada em Roma, convivendo com o grupo de artistas da Via Condotti, especialmente com o pintor polon�s Teodoro Kuntz. A It�lia viria a ser muito importante na trajet�ria art�stica de Goya, n�o s� porque ali p�de aprender e experimentar diversas t�cnicas (como afresco) ou copiar da realidade algumas obras que lhe interessavam e que serviriam como ponto de partida e cat�logo de imagens para suas realiza��es posteriores, mas tamb�m porque permitiu a ele manter contato direto com a 'grande pintura' italiana e europ�ia, fortaleceu seu car�ter como pessoa e pintor, motivando maior ambi��o art�stica e preparando-o para alcan�ar os mais elevados objetivos. 1771 Ap�s voltar da It�lia, Goya � incumbido de pintar um afresco numa das ab�bodas da Bas�lica del Pilar de Zaragoza, onde realiza um trabalho realmente magistral. 1773 Em Madri, casa-se com Josefa Bayeu, irm� de um dos acad�micos mais influentes e Pintor do Rei, Francisco Bayeu, e de seu companheiro de forma��o art�stica em Zaragoza, Ram�n Bayeu. Esta fam�lia de pintores acad�micos aragoneses, com os quais estreitou la�os de parentesco, abre-lhe as portas da Corte. 1783 Come�a a pintar retratos da alta nobreza madrilena. 1786 � nomeado Pintor do Rei. Durante esses anos Goya pinta e recebe muitas encomendas por interm�dio de e com a tutela de seu cunhado, Francisco Bayeu. No princ�pio, muitas de suas pinturas estavam impregnadas do esp�rito e da est�tica academicista em moda na Corte espanhola, das quais Goya foi se libertando pouco a pouco - conforme conquistava maior independ�ncia art�stica e econ�mica com rela��o a seu cunhado Francisco Bayeu -, e alcan�ando um estilo muito pessoal, mais ecl�tico em suas refer�ncias e solu��es est�ticas, em que j� podemos descobrir alguns aspectos de sua genialidade, apaixonada expressividade e premoni��o de sua obra da maturidade. 1789 Ao conquistar prest�gio na Corte, cada vez mais livre e seguro de si, Goya � nomeado pintor de c�mara do rei Carlos IV. Essa honraria e o reconhecimento art�stico que lhe foi outorgado dariam a Goya novas possibilidades e maior for�a para fazer a sua pintura. Mas n�o � esse o motivo principal pelo qual aprofunda de maneira particular o modo de interpretar o ser humano e seus espa�os. 1792 Goya sofre grave enfermidade em C�diz, levando-o � inatividade durante cerca de dois anos e provocando nele a surdez irrevers�vel. A for�ada falta de comunica��o com o mundo o leva a um estado de maior concentra��o e profunda reflex�o sobre a sua pintura, a condi��o humana e a sociedade da sua �poca. Goya participa ativamente dos c�rculos cultos e liberais da Corte espanhola, muito sensibilizados pelos acontecimentos que se sucediam na Europa desde o in�cio da Revolu��o Francesa (1789), e afirma paulatinamente seu car�ter independente e hipercr�tico a respeito de temas e assuntos que definiam a situa��o do Antigo Regime em que se encontrava a Espanha, tanto em seus fundamentos sociopol�ticos quanto nos costumes, criticando a sociedade, o estado clerical, a nobreza parasit�ria, combatendo a Igreja como institui��o de controle social, a Inquisi��o, atacando duramente o casamento como conven��o social, a hipocrisia como norma de conduta, a realidade da prostitui��o, a mendic�ncia etc. Essa reflex�o profunda e comprometida se traduz em imagens na s�rie de gravuras Los Caprichos (1797/99), sem d�vida um dos documentos visuais mais certeiros, incisivos e francos criados por um artista sobre seu tempo, visto ser extraordin�rio em sua concep��o pl�stica e perfei��o t�cnica. 1799 � nomeado primeiro pintor de c�mara, alcan�ando, aos 53 anos de idade, o reconhecimento oficial m�ximo que um artista poderia conseguir em vida na sua �poca. 1800 Come�a o retrato coletivo da fam�lia de Carlos IV, sua consagra��o definitiva como pintor independente e anticonvencional, ao mesmo tempo em que suas interpreta��es psicol�gica e ideol�gica eram recha�adas por parte dos monarcas retratados, motivando seu afastamento de novos trabalhos para a realeza. Os primeiros anos do novo s�culo s�o de intenso trabalho - fundamentalmente em retratos - e de ilus�o por uma mudan�a pol�tica e cultural previs�veis. 1808 O monarca espanhol abdica em nome do filho por press�o pol�tica da Fran�a. Os ex�rcitos franceses de Napole�o ocupam territorialmente o pa�s, chegando a impor Jos� Bonaparte como novo rei da Espanha. Goya, como outros 30 mil chefes de fam�lia, jurou 'amor e fidelidade' ao rei estrangeiro. E, como muitos liberais, confiava na chegada de uma nova monarquia constitucional, na profunda transforma��o da sociedade e dos costumes, na consolida��o de um ambiente culto, esclarecido, racionalista e liberal na Espanha. Mas o que havia sido, em princ�pio, uma 'revolu��o controlada', que trazia a esperan�a, converteu-se pouco a pouco em mera justificativa das aspira��es expansionistas de Napole�o e em uma guerra aberta de conquista francesa e independ�ncia por parte dos espanh�is. Goya, como a grande maioria dos espanh�is cultos e liberais, sofre na carne e no esp�rito as contradi��es e conseq��ncias desse conflito de id�ias - renova��o e liberalismo de um lado e nacionalismo e resist�ncia de outro -, o que, sem d�vida, foi uma amargura para ele durante as �ltimas d�cadas de sua vida, refor�ou seu ceticismo e encheu de pessimismo suas cria��es mais pessoais e reflex�es vivenciais e est�ticas. 1810 Inicia o ciclo de desenhos e gravuras que constituir� mais tarde a s�rie Los Desastres de la Guerra, documento visual excepcional das realidades e seq�elas de toda a guerra, em que Goya afirma com horror sua condi��o de testemunha - "Yo lo he visto", escreve sob algumas das imagens. 1812 Morre sua mulher. 1813 Acaba a Guerra de Independ�ncia espanhola, coincidindo com a deteriora��o do poder imperial napole�nico. 1814 Regressa Fernando VII, filho de Carlos IV, em quem os liberais nacionalistas espanh�is haviam colocado todas as suas esperan�as, resistindo e defendendo a Constitui��o de C�diz. Esta ilus�o, por�m, se desvanece muito rapidamente: o rei decreta a aboli��o da Constitui��o, persegue os liberais e inicia um severo expurgo contra os 'colaboracionistas'. Entre eles se encontra Goya, que sofre a persegui��o e investiga��o do Pal�cio e da Inquisi��o. S�o anos de situa��o delicada para o pintor: perseguido, for�ado a uma grande atividade, pintando retratos para ganhar o favor de seus protetores ou acusadores, em um pa�s em que a vertente reacion�ria recrudesce. Cada vez mais s� e inseguro pela fuga e pelo ex�lio de seus amigos liberais, trabalha em nova s�rie de gravuras - La Tauromaquia, Los Disparates -, se isola do mundo e da fam�lia (apenas reconfortado pela companhia da jovem Leocadia Weiss). 1819 Adquire uma nova resid�ncia - a Quinta del Sordo - que ser� seu pen�ltimo ref�gio pessoal e art�stico. Tem uma grave enfermidade que quase o leva a morte. 1820 Aos 74 anos, come�a a pintar nos muros de sua casa um ciclo de temas e imagens realmente excepcional e diferente, clandestino, herm�tico, esot�rico - Las Pinturas Negras. Com cenas e personagens os mais terr�veis, ou alegorias inquietantes, Goya oferece um amargo resumo de sua pr�pria pintura e raz�o de ser, uma s�ntese definitiva de sua vida, dos muitos anos que p�de viver t�o perigosamente, das muitas ilus�es perdidas ou deixadas de lado, de suas incertezas e as de outros como ele que acreditaram no triunfo de um novo mundo, e tudo velado por uma densa atmosfera de melancolia e tristeza. 1824 Alarmado pela rea��o antiliberal, Goya se muda para uma esta��o de �guas na Fran�a, colocando a dist�ncia como meio de maior seguran�a. Visita Paris e depois se instala, com Leocadia Weiss, em Bordeaux, onde encontra alguns de seus melhores amigos exilados. Em ambiente mais tranq�ilo e com a m�xima ilus�o, aprende a t�cnica da litografia e aperfei�oa os seus conhecimentos e capacidades expressivas nesse meio gr�fico t�o recente ent�o. Los Toros de Burdeos foi o �ltimo ciclo que Goya fez pouco antes de morrer. 1827/28 Viaja por breves per�odos a Madri, para p�r em ordem assuntos econ�micos da fam�lia. Nessa �poca, al�m de desenhos e provas litogr�ficas, Goya faz algumas de suas melhores pinturas, principalmente retratos, entre os quais se destaca La Lechera de Burdeos. 1828 No inverno, adoece. Aos 82 anos, na noite de 16 de abril, morre em sua resid�ncia de Bordeaux, acompanhado por uns poucos amigos, Leocadia Weiss e seu neto Mariano. Poucos dias antes, ao p� de um de seus desenhos (possivelmente um auto-retrato idealizado), escreve: "A�n aprendo". O pintor, que tanto tempo e tantas coisas viu passar e suceder diante de seus olhos e que de maneira t�o pessoal e profunda soube expressar, d� por finalizado o seu contrato desigual com a vida. Longe da Espanha. | |
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